Desemparedar as infâncias

Reflexões e caminhos para reconectar as crianças à natureza e repensar os espaços educacionais

Camila Sawaia

Pedagoga pelo Instituto Singularidades e Arquiteta e Urbanista pela USP, pesquisa a relação do brincar com a cidade. É professora de educação infantil no espaço Puri e foi integrante do Instituto A Cidade Precisa de Você.

Publicado em 30 de maio de 2024
por Camila Sawaia

“A Natureza – o sublime, o inclemente e o belo – oferece algo que a rua, a comunidade fechada ou o jogo de computador não têm. A natureza apresenta aos jovens algo muito maior do que eles são e oferece um ambiente onde facilmente contemplam o infinito e a eternidade. Uma criança pode, numa rara noite clara, subir em um telhado no Brooklyn, ver as estrelas e perceber o infinito. A imersão no mundo natural vai direto ao ponto, expõe o jovem direta e imediatamente aos elementos a partir dos quais os humanos evoluíram: a terra, a água, o ar e os outros seres vivos, grandes e pequeno”

Crianças, cidades e natureza

Sabemos que, atualmente, grande parte da população vive em cidades. Mas percebemos que as crianças vêm perdendo espaço no meio urbano. Elas encontram-se cada vez mais apartadas da cidade, dentro de muros, em espaços institucionalizados e controlados. Assim, por uma série de motivos que incluem o planejamento urbano pouco atento às necessidades da infância, a intensificação do tráfego de veículos e o aumento da desigualdade e da violência, as crianças, cada vez mais, vêm perdendo espaço de experimentação, vivência e circulação nas cidades

Porém, a realidade do Brasil é mais complexa. Por um lado, a pesquisa Free The Kids (Persil; OMO, 2016), mostra que 84% das crianças brasileiras brincam ao ar livre menos de duas horas por dia – e, para 40% delas esse tempo é ainda menor: até uma hora ou ainda menos.1 

Por outro, vale refletir de que crianças estamos falando. A criança periférica, com a qual priorizamos trabalhar, sugere uma realidade diferente. Muitas delas passam horas nas ruas, as quais não são qualificadas e nem pensadas para elas. Se por um lado falamos da necessidade do desemparedamento das infâncias, por outro, é preciso refletir sobre o muro social que é construído para as crianças mais vulneráveis, que muitas vezes estão ao ar livre por falta de opção.

O desemparedamento da infância, termo cunhado pela professora Lea Tiriba, se relaciona diretamente à importância do contato das crianças com a natureza, contrapondo-se à uma realidade atual, na qual as crianças, que estão constantemente aprendendo e se desenvolvendo, passam uma parcela significativa de seu tempo enclausuradas dentro de quatro paredes, muitas vezes em espaços institucionalizados. Suas rotinas não incluem a possibilidade de brincar e aprender do lado de fora. Este fenômeno é agravado pela diminuição das áreas verdes nos contextos urbanos, o que é bastante significativo nas periferias urbanas, que possuem os menores índices de áreas verdes, e pela perda da autonomia infantil nas cidades, resultando em uma desconexão cada vez maior com a natureza.

Em um intervalo de poucas décadas, a maneira como as crianças entendem e vivenciam a natureza mudou radicalmente. A relação se inverteu. Hoje as crianças têm noção das ameaças globais ao meio ambiente, mas seu contato físico, sua intimidade com a natureza, está diminuindo. Os sintomas e efeitos dessa desconexão compõem um problema sistêmico que está levando a profundos impactos em todas as gerações, especialmente crianças e idosos, afetando a qualidade de vida e transformando as possibilidades de cuidado e preservação. 

O Transtorno do Déficit de Natureza, termo cunhado por Richard Louv a partir das implicações acima apresentadas, destaca os impactos negativos dessa desconexão na saúde e bem-estar, não apenas das crianças, mas também do planeta. Pesquisas indicam tanto uma correlação entre a falta de oportunidades de brincar ao ar livre e o aumento de problemas de saúde, como obesidade, hiperatividade e outras condições, quanto, devido a uma menor intimidade com a natureza, uma relação de maior descuido e descaso com as questões ambientais.

O desemparedamento, portanto, implica em reconectar as crianças à natureza, promovendo a utilização e exploração de espaços externos cada vez mais verdes. Essa reconexão é crucial para o desenvolvimento saudável das crianças e para a preservação do meio ambiente

O potencial de transformação das escolas

São muitas as possibilidades de criar espaços de contato e reconexão com a natureza. Mas acreditamos que os espaços educativos são centralidades importantes para começar esse movimento. As escolas, de uma perspectiva ampliada, são espaços capazes de estabelecer uma prática de reflexão mais permanente entre cidade e comunidade, possibilitando uma atuação abrangente e descentralizada dada a condição rizomática da rede de instituições já existente. 

Assim, as escolas podem ser alternativas para que os centros urbanos possam oferecer, aos bebês e crianças, a oportunidade de crescer e brincar ao ar livre e em contato com a natureza, para que possam se conhecer, aprender a avaliar riscos, cair e levantar, e ter um solo fértil para o seu desenvolvimento integral. Verdejar as escolas é uma grande alternativa para começar a verdejar as cidades e criar espaços de contato com a natureza.

Mas, a transformação necessária para desemparedar a infância e reconectá-la à natureza não está apenas nos espaços, mas também nas práticas educacionais. É preciso reconhecer  o valor do brincar e aprender com e na natureza, trazendo essas práticas como elementos centrais da educação. É possível estabelecer uma pedagogia da paisagem, fortalecendo as condições didáticas desejáveis para a valorização da natureza e transformação da sua relação com ela. Mas, para isso, é importante colocar as crianças como ativas e criadoras desse conhecimento e vínculo, sempre valorizando e escutando seus desejos e curiosidades. 

O desemparedamento das infâncias, portanto, é uma transformação física dos espaços, mas também uma revolução na forma como vemos e valorizamos as crianças em suas vidas diárias, promovendo um presente participativo e saudável para todas as gerações.

Experiências que provam ser possível

Essas são ideias que guiam nosso mais recente projeto, ainda em desenvolvimento, Verdejando Escolas: cocriação de espaços naturalizados com a primeira infância, que vem sendo desenvolvido com três escolas de Campinas – SP, em cooperação técnica com a FEAC. Ele incentiva a transformação dos espaços de aprendizagem em ambientes que promovam o contato direto com a natureza a partir da escuta e participação com as crianças. Queremos que bebês e crianças tenham mais contato com a natureza e mais oportunidades de participação cidadã; que as escola ofereçam mais espaços de aprendizagem ao ar livre de qualidade; e que a comunidade escolar desenvolva novas práticas que apoiem e promovam os direitos das crianças à participação, ao brincar livre e à natureza.

Por meio de oficinas com as crianças, formação e acompanhamento com as educadoras e materiais de sensibilização para a comunidade escolar, estamos, juntos, transformando os pátios das escolas, possibilitando que as crianças tenham mais espaço ao ar livre e em contato com a natureza e que sejam vistas em sua potência criadora, ativa e transformadora, iniciando a transformação e reconexão com a natureza pelas escolas e pelas crianças!


  1.  Para dar a dimensão dessa realidade, isso é menos tempo ao ar livre do que passam as pessoas em sistema de reclusão no Brasil, que possuem um mínimo de 2 horas diárias de banho de sol.
    ↩︎

Referências bibliográficas:

LOUV, Richard. A última criança na natureza: resgatando nossas crianças do transtorno do déficit de natureza. São Paulo: Aquariana, 2016.

TIRIBA, Lea. Educação Infantil como direito e alegria. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2023.

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