Como as crianças perderam espaço na cidade?

as crianças vêm perdendo seus espaços na cidade e encontram-se, cada vez mais, em espaços fechados, entretanto, nem sempre a cidade foi um ambiente excludente para elas

Camila Sawaia

Pedagoga pelo Instituto Singularidades e Arquiteta e Urbanista pela USP, pesquisa a relação do brincar com a cidade. É professora de educação infantil no espaço Puri e foi integrante do Instituto A Cidade Precisa de Você.

Publicado em 30 de maio de 2024
por Camila Sawaia

Ao longo das últimas décadas, as cidades vêm sofrendo grandes transformações, profundas e muito rápidas, as quais vêm mudando muito também a infância. As cidades vêm se fazendo maiores e mais complexas, mas, ao mesmo tempo, cresce uma população infantil cuja qualidade de vida em relação às cidades deteriorou-se notavelmente.  As crianças vêm perdendo seus espaços na cidade e encontram-se, cada vez mais, em espaços fechados e institucionalizados. Entretanto, nem sempre a cidade foi um ambiente excludente para elas.

Na Idade Média, os jogos, brinquedos e as brincadeiras eram comuns a toda sociedade (independentemente de idades ou classe social), formando um dos principais meios de que se dispunha uma sociedade para estreitar seus laços coletivos e para se sentir unida. Todos se juntavam para brincar. Isso era ainda mais evidenciado nas grandes festas tradicionais e sazonais, na qual todos participavam e desempenhavam papéis específicos e importantes. Todas essas atividades apareciam como divertimentos que levavam os indivíduos a participar na comunidade e estabelecer relações sociais, bem como seu papel e lugar dentro do grupo ao qual pertenciam.

Segundo o historiador Ariès, até os séculos XV e XVI, no início da Idade Moderna, nas cidades europeias, as crianças ainda eram bastante presentes e misturadas aos adultos nas atividades e na vida em público. Com os jogos, as brincadeiras e a participação nas festas populares, ambos ocupavam os mesmos lugares urbanos. 

As festas que aconteciam nas cidades tinham uma função social importante, pois serviam para transmitir costumes, tradições, valores e construir continuamente a identidade coletiva. Também estreitavam as relações entre seus membros, aglutinavam pessoas de várias idades, gêneros e procedências diversas e serviam como um ambiente potencialmente rico para as crianças. Tanto as festas quanto as brincadeiras e os jogos se davam nos espaços públicos e “a rua, mais ainda que a praça, era o lugar das crianças por excelência” (LIMA, 1989, p.184).

Entretanto, o convívio social era marcado pela moral cristã que, a partir do século XVII e até os dias de hoje, veio condenando muitas das danças, festas e jogos coletivos entre adultos e crianças por seu caráter sexual. Assim, aos poucos, os espaços públicos vieram perdendo essa função de expressão coletiva. 

Apenas com os moralistas e os educadores do século XVII, que fundam os colégios no fim da Idade Média, que o sentimento de uma infância longa começa a se estabelecer, focada nas práticas de educação por meio de uma formação moral e intelectual e de uma preocupação em isolar as crianças do mundo “sujo” dos adultos, mantendo-as na “inocência”. Concomitantemente à escolarização, as crianças vão perdendo inúmeras possibilidades que as práticas na cidade traziam de construir seus aprendizados baseados no exemplo e no convívio com outros grupos sociais.

Inclusive, é um tanto contraditório observar que, na Idade Média, apesar da infância ainda não ser identificada como tal, as crianças exerciam funções sociais dentro do grupo e podiam desfrutar da cidade e das relações de maneira irrestrita; enquanto, a partir do século XVII, conforme foram ganhando reconhecimento e cuidados diferenciados, perderam seus papéis sociais e o direito de usufruir dos espaços urbanos com liberdade.

Assim como mudou o reconhecimento da infância, a partir dos séculos XVIII e XIX, as cidades e os espaços urbanos se modificaram. Com a necessidade de maior isolamento das famílias, da mudança e da redução da sociabilidade, acrescidas das transformações advindas dos processos de industrialização e do incremento da população urbana, as cidades assumiram funções especializadas, opostas às possibilidades de ocupações, relações sociais e atividades coletivas públicas, realizadas anteriormente de maneira ampla e espontânea.

Ainda que a cidade estivesse se transformando e abrigando outros usos em decorrência da chegada das indústrias e dos veículos automotores, até a primeira metade do século XX, o espaço urbano ainda possibilitava o encontro e as trocas entre os cidadãos – adultos e crianças – mesmo que de uma maneira muito distinta do que aquela apresentada anteriormente. 

Após a segunda metade do século XX, as áreas urbanas vão, cada vez mais, especializando-se e fragmentando-se com o surgimento de novos espaços para abrigar os usos públicos, anteriormente localizados nas ruas, fato que auxiliou no processo de segregação e especulação do solo urbano. Ao mesmo tempo, com o aparecimento da estrutura familiar burguesa, ocorrem mudanças nas concepções de família, infância e da relação com o coletivo. Os jogos, os brinquedos, as festas e as brincadeiras começam a tornar-se exclusivos do universo da criança.

A partir daí a cidade vai deixando de ser o lugar do encontro e das trocas e começa a desenvolver-se um interesse pelo estabelecimento de locais especializados para cada função e público alvo. Essa mudança no papel e nas funções urbanas permite uma transformação dos espaços livres públicos em áreas de perigo e desconfiança.

Aos poucos, com a industrialização, surge a polícia metropolitana, responsável pela ordem urbana. Soma-se a isso uma preocupação com a moral, advinda do novo sentimento em relação à infância. Assim, alguns jogos e brincadeiras passam a ser inadequadas, as festas são proibidas, evita-se tumultos e promove-se o decoro. Assim, os cultos, festividades e brincadeiras que eram realizados por toda coletividade, e que agitavam e marcavam todos os indivíduos em seus laços com seu contexto social, passam a perder espaço. A rua passa a ter a função predominante de circulação e as crianças passam a ser confinadas em espaços fechados – a casa, a escola, as fábricas onde passam a trabalhar. Perde-se o convívio natural entre adultos e crianças no espaço urbano e as crianças vão perdendo seus espaços na cidade.

Assim, assistimos a transformações na maneira de perceber, pensar a criança e relacionar-se com ela. Hoje, em uma sociedade ocidental e moradora de grandes centros urbanos, como é o caso de São Paulo, vemos um grande distanciamento e uma especialização da infância, ausentando as crianças das relações sociais mais amplas – fora dos círculos familiares e escolares – e dos lugares de uso comum a todos os cidadãos, como são os espaços livres públicos urbanos.

As brincadeiras que antigamente se davam nos espaços públicos das cidades, sob maior autonomia e liberdade infantil, não ocorrem mais, sob a alegação de insegurança nas ruas. Hoje, as brincadeiras são sempre supervisionadas e controladas por adultos, impossibilitando processos de exploração, descoberta, surpresas e riscos. 

A imagem de uma cidade perigosa vem sendo fortalecida, estabelecendo uma relação cíclica: com menos crianças nas ruas, essas são dominadas por carros que circulam em alta velocidade, tornando-as espaços esvaziados e sem uso, tendência para o aumento da violência, a qual tira as crianças das ruas, uma vez que os pais, preocupados, impedem cada vez mais seu movimento. A menor presença de crianças brincando nas ruas e demais áreas públicas dos centros urbanos também faz com que sejam ainda mais invisíveis aos olhos dos adultos e das políticas públicas.

Assim, a cidade não vem mostrando-se como um espaço que abrigue as crianças de modo que elas possam ter uma experiência completa que permita uma vivência urbana cidadã. Elas, de modo geral, entram para dentro de casa e vão perdendo seus espaços nas ruas, que deixam de ser locais nos quais elas possam frequentar. A criança vai, cada vez mais, perdendo sua autonomia de movimento e, por consequência, seu direito à cidade, à paisagem e ao brincar.

Referências:

ARIÈS, P. História Social da Infância e da Família. Rio de Janeiro: Zahar, 1981

FREIRE, Paulo. Política e educação: ensaios. 5 ed. São Paulo: Cortez, 2001. 

LIMA, Mayumi Watanabe Souza. A cidade e a criança. São Paulo: Nobel, 1989.

SILVA, Maria Alice Setúbal S.; GARCIA; Maria Alice Lima; FERRARI, Sônia Miguel. Memórias e Brincadeiras na cidade de São Paulo nas primeiras décadas do século XX. São Paulo: Cortez, 1989.

TONUCCI, Francesco. La ciudad de los niños. Barcelona: Graó, 2015.

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